A VERDADE DA MENTIRA

Por que não é certo usar o termo "fake news" e por que usaremos mesmo assim

O conceito de "fake news" ou, em bom português, "notícia falsa" se popularizou há algum tempo em todo o mundo. Em 2017, a expressão foi eleita a palavra do ano pelo dicionário britânico Collins. Mas, por diversos motivos, o uso do termo é debatido entre especialistas em comunicação.

A disseminação de boatos e mentiras não é algo novo, mas as redes sociais turbinaram o fenômeno. Isso causa preocupação, pois a falsidade das informações contamina o debate público, podendo influenciar até mesmo os resultados de eleições. Mas é correto chamar esse fenômeno de "fake news"?

A pesquisadora britânica Claire Wardle, diretora do instituto de checagem de fatos First Draft, ligado à Universidade de Harvard, é uma das principais críticas da expressão fake news. Ela não usa o termo porque considera que ele não dá conta da complexidade do fenômeno. O problema é que o rótulo passou a ser usado para definir coisas muitos distintas, desde teorias da conspiração até notícias verdadeiras das quais as pessoas não gostam ou se recusam a acreditar.


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Neste especial, uma jornalista irá ivestigar e mostrar as frentes de resistência do universo digital no monitoramento e interceptação de desinformação, notícias falsas e uso de robôs (bots) para proteger o processo democrático das eleições brasileiras em 2018 de danos colaterais.


Para Wardle, o termo fake news se tornou perigoso porque está sendo manipulado por políticos para descrever qualquer informação que não seja do seu agrado. "A indústria de notícias precisa reconhecer que a expressão 'fake news' se tornou uma arma e que temos a responsabilidade de simplesmente não usá-la", diz. A pesquisadora prefere usar duas palavras distintas. A primeira é disinformation (desinformação), que ela classifica como a criação deliberada de mentiras para atingir um objetivo. A segunda é misinformation ("informação ruim", em tradução livre), descrita por ela como o compartilhamento desavisado de informação falsa. 

Segundo Wardle, misinformation é o tipo de informação falsa disseminada nas redes sociais por pessoas desavisadas, sem ter a intenção de prejudicar ou confundir ninguém. “Pode ser minha mãe compartilhando uma foto chocante do furacão Irma sem perceber que na verdade se trata de uma imagem antiga de algum outro evento. Ela apenas não verificou a informação corretamente", exemplifica a pesquisadora. Já disinformation é quando alguém grupo organizado cria e espalha informações incorretas de forma proposital para atacar adversários ou enaltecer seus líderes e aliados.

Outros especialistas acreditam que lutar contra a expressão fake news é uma batalha perdida. Para eles, o melhor seria juntar energias para derrubar as informações falsas que circulam diariamente. “Só porque alguém usa o termo para definir algo diferente não significa que ele perca seu valor”, disse Alexios Mantzarlis, diretor da rede internacional de verificação de fatos do Poynter Institute. "Se alguém começa a chamar um telefone de banana, não significa que o resto de nós deva parar de chamar um telefone de telefone", afirmou. 

Apesar da discussão, o History continuará a usar o termo "fake news" em algumas situações, mesmo que ele não seja totalmente preciso.  A expressão já está consagrada na imprensa e no debate público, por isso consideramos que ela ainda pode ser útil para resumir um importante problema com o qual a sociedade em geral precisa lidar. Independentemente do termo utilizado, o importante é sempre conferir se qualquer informação recebida tem fonte confiável antes de acreditar nela e espalhá-la por aí.


Fontes: Agência Lupa, EstadãoThe Atlantic, BBC e CNN

Imagem: Shutterstock.com