IMPÉRIO ROMANO

A cabeça de Meroé: uma forma inusitada de humilhar o Império Romano

A cabeça de Meroé, uma escultura de rara técnica, é uma das obras mais emblemáticas do acervo do Museu Britânico, em Londres. Sua descoberta remonta a 1910, quando o arqueólogo John Garstang liderou escavações nas ruínas de um templo no sítio de Meroé, cidade do antigo reino de Kush (no atual Sudão), local que ficava além da fronteira sul do Império Romano. Ali, ele encontrou uma cabeça de bronze em perfeito estado de conservação que apresentava claros sinais de técnica romana.

A princípio, Garstang acreditou que a imagem representasse Germânico, o general romano contemporâneo de Augusto. No entanto, estudos concluíram que a escultura reproduzia o rosto do próprio Augusto e que a cabeça costumava fazer parte de uma escultura de corpo inteiro do primeiro imperador de Roma. A descoberta tinha um valor excepcional, já que ela poderia trazer mais informações sobre o porquê de a peça estar enterrada ali. 



Ninguém esperava encontrar um artefato de Roma em uma cidade do reino de Kush. O que a escultura da cabeça de Augusto estaria fazendo em um local tão distante? A resposta pode estar em um episódio acontecido no século I d.C. Élio Galo, prefeito do Egito designado por Augusto, promoveu uma expedição militar desastrosa à Arábia Feliz. Naquela época, um exército do reino de Kush, que se opunha à presença dos romanos na região, se aproveitou da ausência de Élio para saquear as localidades egípcias de Sena, Elefantina e Filas, que estavam sob o domínio de Roma.



Uma das hipóteses para a presença da cabeça no templo onde ela foi encontrada sugere que ela fazia parte de uma das estátuas derrubadas pelos soldados de Kush durante a invasão a essas cidades egípcias. A escultura teria sido transportada até Meroé e sepultada em um recinto religioso, sob a escada de entrada, com o fim de celebrar um ritual de humilhação ao Império Romano. Assim, todo aquele que entrasse no templo estaria passando pela cabeça do inimigo derrotado.


Fonte: La Vanguardia 

Imagem: Nic McPhee; Museu Britânico; Paul Hudson e Unesco, via Wikimedia Commons