MEDICINA

O estranho caso do estudante universitário que praticamente não tinha cérebro

Em 1980, a revista Science publicou um artigo intrigante baseado em um caso observado pelo médico John Lorber. O texto colocava em dúvida a importância de um dos órgãos mais importantes do corpo: o cérebro. Com o título de “O cérebro é realmente necessário?”, a matéria relatava a experiência profissional do neurologista com um aluno de Matemática da Universidade de Sheffield, que tinha uma leve dor de cabeça.

Ao examinar o paciente, Lorber detectou que a cabeça do jovem era um pouco maior do que o habitual. E além disso, o garoto quase não tinha cérebro. Ele sofria de hidrocefalia, uma doença na qual o líquido cerebrospinal não se movimenta pelo cérebro, mas habita a cavidade craniana.

Lorber ficou espantado com essa descoberta, já que a falta de massa cerebral não significou uma perda de movimentos, processos sensoriais nem mesmo falhas na memória ou em outras funções cognitivas do paciente. Em conclusão, o médico acredita que “o cérebro tem uma grande redundância nas funções e uma pequena quantidade de matéria cerebral pode representar perfeitamente os hemisférios faltantes”.

Nos primeiros meses de vida, a hidrocefalia é geralmente fatal. Em caso de sobrevivência, a pessoa geralmente sofre de deficiências. Mas o jovem estudante, além de levar uma vida normal, também se formou com louvor em matemática.

O neurologista examinou mais de 600 casos de hidrocefalia, determinando quatro grupos: pessoas com cérebros quase normais, crânio com volume de líquido entre 50 e 70%, pessoas com líquido cerebral entre 70% e 90%, e aqueles com até 95%. A metade dos examinados tinha uma incapacidade mental severa, enquanto o restante registrou quociente intelectual (QI) maior que 100. Esse era o caso do estudante de matemática, cujo QI era de 126.

Em 2007, o jornal de medicina The Lancet relatou um caso parecido na França. Um funcionário público de 44 anos fez uma série de exames após se queixar de fraqueza na perna esquerda. Uma tomografia de sua cabeça revelou que ele tinha um cérebro minúsculo e o restante do neurocrânio estava preenchido por um líquido. De acordo com os médico Lionel Feuillet, da Universite de la Mediterranee, em Marselha, quando o paciente era criança foi colocado um dreno em sua cabeça para retirar o excesso de fluido causado por uma hidrocefalia (mas o dispositivo foi retirado quando ele completou 14 anos). Segundo os médicos, a condição não impediu o paciente de levar uma vida normal. Além de trabalhar, o francês se casou e teve dois filhos.


Fontes: ScienceRevyuh e Business Insider

Imagens: Feuillet et al/The Lancet, Shutterstock.com e Science