BRASIL NEGRO

As revoltas do povo preto que marcaram a história do Brasil

O Brasil tem na escravatura um dos episódios mais vergonhosos de sua história. Durante mais de 300 anos, estima-se que o país tenha recebido cerca de 5 milhões de africanos cativos. Ao longo dos séculos, os escravizados se rebelaram contra seus opressores em diversas ocasiões. Confira abaixo algumas das principais revoltas do povo preto pela liberdade que aconteceram em território brasileiro:

Quilombo dos Palmares - Capitania de Pernambuco (1580-1695)

Os quilombos foram uma forma de rebelião contra o sistema escravista, que obrigava homens e mulheres trazidos da África a prestarem serviços forçados. O Quilombo de Palmares, na Serra da Barriga, então Capitania de Pernambuco (hoje em dia território de Alagoas), tornou-se uma referência na história da resistência dos pretos. As mais famosas lideranças foram Ganga Zumba e seu sobrinho, Zumbi. O Quilombo de Palmares resistiu por mais de um século, demonstrando assim sua grande organização política e militar.

Quilombo do Quariterê – Mato Grosso (1730-1795)

O Quilombo do Quariterê era liderado por Tereza de Benguela, mulher preta que marcou a história do Brasil. Lá, ela era conhecida como “Rainha Tereza”, atuando como estrategista militar e dirigente política. De acordo com documentos da época, ela estabeleceu em seu quilombo uma forma de governar que funcionava de forma semelhante a um parlamento, com deputados, um conselheiro, reuniões e uma sede. O Quilombo de Quariterê esteve em atividade entre 1730 e 1795. A liderança de Tereza vigorou até 1770, quando foi presa e morta pelo Estado.

Revolta do Engenho Santana – Bahia (1789, 1821 e 1828)

Os escravizados do Engenho Santana, em Ilhéus, na Bahia, se revoltaram por três vezes. Na primeira, em 1789, eles mataram o feitor, apoderaram-se de alguns meios de produção e fugiram para a floresta, onde criaram quilombos. Depois, rebeliões se repetiram em 1821 e 1828. Após inúmeras tentativas de expedições militares para reprimir o movimento, os rebeldes elaboram um “tratado de paz” para negociar cláusulas com as condições para seu retorno ao Engenho e ao cárcere. Mas os líderes do movimento foram presos, encerrando a luta naquele momento no engenho.

Revolta das Carrancas - Minas Gerais (1833)

A Revolta de Carrancas foi um confronto sangrento que aconteceu em 13 de maio de 1833. Naquele dia, um grupo de escravos da abastada família Junqueira, armado de enxadas, foices e paus, iniciou uma ação pela liberdade de forma violenta na Fazenda Campo Alegre, em Carrancas (MG). Eles mataram o filho do proprietário, que se encontrava no Rio de Janeiro. De lá, o grupo seguiu para a fazenda Bella Cruz, juntou-se aos demais escravos e atacou, de surpresa, a sede dessa outra propriedade, matando todos os moradores,  em um total de oito membros da família Junqueira. À noite, os revoltosos rumaram para a Fazenda Jardim, onde o levante foi sufocado e o líder do movimento, Ventura Mina, assassinado a tiros, juntamente com mais quatro escravos. Os revoltosos sobreviventes fugiram, mas acabaram capturados dias depois. No processo penal, foram indiciados 31 escravos. Dos 17 condenados à pena de morte, 16 foram enforcados. 

Revolta dos Malês – Bahia (1835)

A Revolta dos Malês foi liderada por pretos muçulmanos, em Salvador (BA), entre os dias 24 e 25 de janeiro de 1835 (no fim do mês sagrado do Ramadã). Os malês eram formados por libertos e escravos urbanos que tinham mais liberdade para circular pela cidade. Eles desempenhavam atividades livres, atuando como alfaiates, pequenos comerciantes, artesãos e carpinteiros. “Malê” é a corruptela do termo iorubá imalê, que quer dizer muçulmano. O levante reuniu cerca de 600 pretos (embora outras fontes indiquem 1500). O objetivo era a libertação de todos os escravos africanos de origem mulçumana. Foram mortos 70 revoltosos e sete homens das tropas oficiais. Quase três centenas de malês foram presos e julgados. As penas aplicadas variaram de açoites, trabalhos forçados até a deportação para a África e a condenação à morte (o que foi sentenciado aos líderes).

Revolta de Cantagalo – São Paulo, 1885

Em 31 de outubro de 1882, 120 escravos da fazenda Cantagalo, em Campinas, na província de São Paulo, revoltaram-se e marcharam em direção à cidade. No caminho, gritavam palavras de ordem, como “Viva a liberdade”. No inquérito policial que apurou o movimento rebelde as autoridades perceberam que aquele acontecimento tinha grande extensão, envolvendo escravos de outras propriedades. O escravo Severo, um dos envolvidos no levante, ao ser interrogado pela polícia, confessou que fazia parte de uma “sociedade secreta” sob a direção de Felipe Santiago e José Furtado, este último escravo e o outro liberto. Severo disse ainda que eles costumavam se reunir em várias fazendas para tratar da liberdade dos escravos.


Fontes: Guia Negro, UFF, UFSJ, SBMFC, Brasil Escola, Palmares.gov.br e Geledes

Imagens: Johann Moritz Rugendas (1802–1858) e Domínio Público