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Atletas olímpicos perdem suas medalhas após protesto no pódio

Atletas olímpicos perdem suas medalhas após protesto no pódio-0

Em 17 de outubro de 1968, os medalhistas olímpicos de ouro e bronze, respectivamente, Tommie Smith e John Carlos foram forçados a retornar suas medalhas. Isso porque os atletas da equipe dos Estados Unidos levantaram seus punhos em uma saudação black power durante a cerimônia de premiação. Em uma coletiva de imprensa no dia seguinte, o presidente do Comitê Olímpico Internacional Avery Brundage repudiou a “postura ultrajante” dos atletas. Segundo ele, o manifesto renegou “os princípios básicos dos Jogos Olímpicos”. A fotografia  da cerimônia é uma das mais marcantes de uma época tumultuada.

Em 16 de outubro, Smith e Carlos terminaram em primeiro e terceiro lugares nos 200 metros nas Olimpíadas da Cidade do México. Smith conquistou um novo recorde mundial: 19, 83 segundos. Seu protesto na cerimônia olímpica foi relativamente espontâneo – a dupla decidiu realizar o ato enquanto esperava pelo início do evento no lounge dos atletas. Mas ambos já eram bastante ativos no movimento pelos direitos civis muito antes de chegar na Cidade do México. Junto com Harry Edwards, um de seus professores na San Diego State University, Smith e Carlos organizaram um grupo chamado “Olympic Project for Human Rights” (OPHR), ou “Projeto Olímpico para os Direitos Humanos”, na tradução. O grupo tentou incentivar atletas afro-americanos a boicotar os jogos. (Nas palavras de Carlos: “Mesmo que você ganhe uma medalha, ela não salvará sua mãe. Não salvará sua irmã ou seus filhos. Ela pode lhe dar 15 minutos de fama, mas e quanto ao resto de sua vida?”).

Quando chegaram ao pódio para a cerimônia, Smith e Carlos vestiam emblemas da OPHR em suas roupas esportivas (o medalhista de prata, o australiano Peter Norman, também). Eles estavam descalços, para simbolizar a pobreza sofrida por muitos afro-americanos.  

Carlos estava usando um colar de contas pretas, segundo ele, “para aqueles indivíduos que foram linchados ou mortos e que ninguém orou por eles, que foram punidos”. Smith usava um cachecol preto. Ambos inclinaram suas cabeças para baixo, levantaram suas mãos com luvas e permaneceram em silêncio enquanto tocava o hino dos Estados Unidos. 

As pessoas que assistiam à cerimônia xingaram e vaiaram os atletas. O Comitê Olímpico Internacional se reuniu no dia seguinte e determinou que Smith e Carlos teriam que devolver suas medalhas e deixar a Vila Olímpica – e o México – imediatamente. Brundage inclusive ameaçou banir toda a equipe dos Estados Unidos como punição. O Comitê Olímpico dos Estados Unidos destacou: “O exibicionismo atípico desses atletas violou os padrões básicos de boas maneiras e espírito esportivo, que são altamente valorizados nos Estados Unidos. Um comportamento tão imaturo é um incidente isolado e um desrespeito deliberado aos princípios olímpicos”. 

Mesmo após os atletas terem sido punidos, as reações continuaram. Os jornais os compararam a nazistas. Brett Musburger, um locutor esportivo da ABC, os chamou de “soldados nazistas de pele negra”. A revista Time chamou o ato de “desagradável” e “feio”. Suas atitudes “antiamericanas” fizeram com que Smith fosse dispensado do Exército. Além disso, alguém jogou uma pedra pela janela no berço de seu bebê. Os dois receberam ameaças de morte durante anos. 

No entanto, recentemente a opinião pública vem mudando, e muitas pessoas comemoram o ato corajoso dos velocistas. Em 2005, a San José State University inaugurou uma estátua em homenagem aos dois.  


Imagem: Angelo Cozzi/Domínio Público, via Wikimedia Commons